A Globo e o Golpe se unem na 1002ª noite.

A Globo e o Golpe se unem na 1002ª noite.
outubro 08 20:41 2017 Imprimir este Artigo

Narcisismo, impunidade, escárnio. Não vem ao caso! publicado 08/10/2017

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Um Dolce&Gabana e um milhão de flores! (Reprodução/Instagram/Marina Ruy Barbosa)

Narcisismo de uma elite que se contempla no espelho da Globo.

Impunidade de uma elite que não paga impostos.

Escárnio de uma elite que humilha os miseráveis da nação que tem a maior desigualdade de renda do mundo, ao lado da África do Sul do apartheid.

A Elite e a Globo que se uniram para dar o Golpe.

O Golpe de que Fernando Henrique foi o indispensável Sociólogo.

É tudo a mesma sopa: os 800 convidados de uma festa acintosamente debochada, e os canalhas, canalhas, canalhas, na acepção do Requião e do Lindbergh.

Realizou-se em Campinas, SP, nesse sábado 7/X o casamento do regime: do Golpe com a Globo.

Como aquele que o mestre Joel Silveira descreveu, em 1945, da Filly, Filomena, filhinha do Francisco Matarazzo Jr. – conhecido como “Conde Chiquinho” – e que Silveira imortalizou na reportagem “A 1002a noite da Avenida Paulista”. (Leia a integra abaixo)

Agora, em Campinas uniram-se pelos laços sagrados do matrimônio um herdeiro – um desses que o Piketty descreve em “O Capital de Século XXI “ – e uma estrela – desde tenra idade – da Globo.

Alguns detalhes do PiG (com breves comentários do ansioso blogueiro):

O casal se conheceu em 2016 durante réveillon em Fernando de Noronha – onde Luciano Huck tem modesta pousada – e ficaram noivos na Tailândia em julho do ano passado.

O noivo a presenteou com uma aliança de 3,5 quilates de diamantes, avaliada (por baixo!) em R$ 500 mil. 

A festa do casamento se realizou nos jardins da mansão da família do noivo, num luxuoso condomínio, em Campinas.

Todos os convidados tiveram que baixar um aplicativo que gera uma senha para que entrassem na festa. Ainda precisaram cadastrar a placa do carro com que vão à cerimônia. No app, restrito para os 800 convidados, podem ser encontradas informações básicas de data, endereço, lista de presentes, dress code, onde se hospedar e como chegar ao evento.

Somente família e amigos tiveram acesso à área restrita do aplicativo e, na chegada ao local, um token individual será gerado automaticamente para garantir que ninguém de fora tenha acesso à festa.

As madrinhas ganharam um bracelete de orquídea de resina, uma clutch de palha personalizada com a inicial de seus nomes, uma vela da marca britânica Jo Malone e um par de brincos da coleção My Garden da Life by Vivara, coleção assinada pela atriz. 

Os padrinhos ganharam um kit com uma garrafa de whisky Jack Daniel’s, um charuto com um cortador, e uma gravata cinza com as iniciais dos noivos e a data do casamento bordados.

A principal “atração” foi o vestido da noiva desenhado pelos estilistas italianos Dolce & Gabbana. 

O vestido foi desenhado exclusivamente para ela, que fez a última prova em Milão, em setembro, quando desfilou para a marca.

Acinturado, feito com detalhes em tule, tem uma pegada princesa, mas sexy ao mesmo tempo — corset em cima e volume embaixo.

A mãe do noivo é decoradora e assina os detalhes da festa.

O badalado Vic Meirelles foi o responsável pelas flores – eram milhoes, de origens diversas – além do show de dez minutos de fogos de artificio.

A cantora Anitta é grande amiga da noiva e fez todo mundo dançar.

De acordo com a VEJA, o detrito sólido de maré baixa a soma de todos os presentinhos da lista elaborada pelos noivos, que tem itens na H. Stern Home e FastShop, passa  de um milhão de reais. 

Um dos momentos mais esperados de qualquer casamento é aquela hora em que a noiva joga o buquê para as convidadas, não é mesmo? E na cerimônia, não foi diferente.

A noivinha subiu no palco e recebeu a pessoa mais apropriada para narrar seu gesto: Galvão Bueno.

Sim, o narrador deu a largada para Marina e criou um dos momentos mais frenéticos da noite.

(Veja aqui esse vídeo inesquecível).

Como se isso não bastasse, quem pegou o buquê foi a top Celina Locks, namorada de Ronaldo, o fenômeno.

Vejam a animação de Galvão ao gritar o nome do jogador, seu colega de narrações (insuportáveis) da Globo.

O interessante é que o Fenômeno subiu ao palco com a noiva e pediu-a em casamento: para 2026!

Os docinhos e o bolo em estilo “rococó decadente” ficaram por conta de doceira de tradicional sobrenome também de São Paulo, que já está acostumada a fazer grandes festas para famosos e da alta sociedade.

Por fim, o bufê de nome francês, também de São Paulo, ficou responsável pela parte dos comes e dos bebes e criou um cardápio especial para o casal, com suas comidas favoritas. (Entre elas, provavelmente, Virado à Paulista e pizza de linguiça calabresa.)

O noivo é piloto da Stock Car – daí, a intimidade com o Galvão.

O pai vendeu uma empresa farmacêutica a uma multinacional francesa.

E agora se dedica a uma das maiores fazendas de confinamento de gado e fábrica de pás para produção de energia eólica, no Ceará.

A noiva é uma estrela global de primeiríssima grandeza!

Um sol na empresa que é o orgulho do Brasil!

A sorte dos 800 convidados é que não apareceu por lá nenhum fiscal da Receita, nenhum Juiz Imparcial, nenhum Procurador da Lava Jato, nem uma certa delegada de Santa Catarina.

Mas, mesmo que aparecessem, provavalmente iam cair na farra.

Porque, como se sabe, com esse pessoal… não vem ao caso!


Quatro atores da Globo


Atriz (discreta) da Globo cujo personagem se inspira na mulher do Nem da Rocinha


O candidato a Presidente e a Primeira Dama


Casal global Angelina Jolie e Brad Pitt


O bolo no estilo “rococó decadente”

(E viva a República Federativa da Cloaca, que é a mesma desde o Joel Silveira: escravocrata!)

Leia a seguir, na integra a histórica reportagem do Joel:

A milésima segunda noite da avenida Paulista

Confesso que, durante toda uma semana, em São Paulo, andei esfaimado atrás de um convite para o casamento da filha do conde Francisco Matarazzo Júnior com o “pracinha” João Lage. Dois ou três elementos da finesse, mesmo cônscios da traição que iriam praticar, me prometeram o ingresso disputadíssimo, mas falharam completamente. Um deles, visivelmente encabulado, me procurou no domingo, véspera da fase mais importante do acontecimento, e tentou suavizar meu desespero com a seguinte promessa: -Não se aborreça. Você não vai, mas eu vou e lhe conto tudo. A bem da verdade, digamos que o grã-fino cumpriu com sua palavra: a descrição da festa que me desfiou, na terça-feira, foi a mais completa e detalhada possível.

Sem surpresas, porém. É que a imaginação do repórter, mais ou menos a par dos arrebatamentos da fortuna, já havia criado, para uso próprio, uma versão antecipada daquela milésima segunda noite da avenida Paulista. Houve apenas um ou outro incidente não previsto, como o leve atrito entre o dr. Marques dos Reis e um conviva, por motivos desconhecidos, e a acalorada discussão política entre o falangista Garcia Conde, representante de Franco no Brasil, e um progressista big shot de nossas indústrias. No mais, o meu amigo me confessou que voltou da lantejoulante noitada um tanto indignado com o comportamento e ação dos quinhentos “tiras” (na realidade, cem) contratados pelo conde para o policiamento do casório. -A gente não podia dar um passo, que não sentisse uma porção de olhos espetados em nossas costas. Quando a gente se aproximava, então, de um objeto de valor, era uma coisa afrontosa: um rapaz elegante e bem penteado logo se aproximava e ficava disfarçando. Horroroso. Talvez tenha sido afrontoso, mas foi prático.

Na noite do dia 10 último, ao contrário do que vinha acontecendo em anteriores festejos organizados pelo conde, nenhuma jóia desapareceu no palácio, nem ao menos um par de talheres de suas baixelas. O que os convivas trouxeram de lá (canetas-tinteiro de ouro, broches de brilhantes, cotillons prateados e dourados, mil ricas lembranças outras) foram dádivas friamente distribuídas pelo conde e perfeitamente enquadradas nas possibilidades, quase ilimitadas, dos seus lucros extraordinários. Como teria nascido a idéia da “mais brilhante festa já realizada no Brasil”? Dizemme que foi de uma conversa, no Rio de Janeiro, entre o conde e elementos da sociedade carioca.

Os referidos elementos haviam chamado a atenção do conde para a necessidade de uma “festa brasileira, uma festa que deixasse seu brilho nos anais dos nossos acontecimentos”.

Particularmente, qualquer coisa que deslustrasse, com suas luzes, o feérico acontecimento que foram os esponsais do cabeçudo d. Nuno com a melancólica d. Teresa. E quem, no Brasil, poderia ser o organizador de tal empreitada? Somente o conde Francisco Matarazzo JÚnior, feliz arrecadador de lucros avaliados em 400 milhões de cruzeiros anuais. O conde teria retrucado não ter jeito para aquilo, no que foi respondido que onde há dinheiro não é preciso jeito. E que motivo melhor para a “bela festa” do que o próximo casamento de sua filha Filly? O tema Filly foi habilmente desenvolvido pelos referidos elementos (a maioria deles tinha interesses particulares na festa: interesses profissionais e comerciais, principalmente) e os músculos sentimentais do conde acabaram por relaxar. Naquela noite, quando o conde garantiu que seria realizada “a mais bela festa do Brasil”, uma fada mágica bateu com sua pródiga varinha na cabeça de vários cavalheiros nacionais. Houve telefonemas na madrugada, houve consultas e intrigas, e dez ou vinte senhores adormeceram, os que conseguiram, certos de que seus capitais, por magia do conde, iriam ser aumentados, e que ótimos negócios encerrariam as atividades deste ano de 1945.

De resto, o ano da Vitória. “A mais bela festa do Brasil” não foi, contudo, apenas um espetáculo. Mais do que isso, foi uma sucessão de espetáculos e acontecimentos mundanos. Nenhum paulista poderá esquecer aquela semana, um desfilar ininterrupto de recepções, jantares, ceias, bailes e festas. O Jequiti e o Roof foram tomados de assalto, o Esplanada viveu os seus dias mais intensos e brilhantes, nunca havia lugar para nós (falo dos mortais comuns) no Papote ou no Spadoni. Era, a bem dizer, o congresso da grã-finagem nacional, antes tão dispersa nos seus movimentos e que, agora, atraída pela força magnética do conde Matarazzo, se confundia num bloco interestadual, poderoso e aurifulgente. “Os próprios cronistas sociais se acharam numa trapalhada louca para identificar os granfas”, me informou um rapaz paulista, e eu mesmo tive ocasião de ver, numa das fases preparatórias do casório, como o mundaníssimo sr. Gilberto Trompowsky se emaranhava, o lapisinho nervoso sobre o caderno de notas, no meio da complicada floresta de elegância. Um balanço honesto, pacientemente colecionado durante a semana dourada, nos diz, então, que antes, e à margem do casamento, mas a ele ligado, houve o seguinte: 26 jantares em residências particulares; oito recepções; dezesseis ceias no Jequiti e sete no Roof, não falando de uma série de pequenos incidentes mundanos: coquetéis, chás com torradas, encontros fortuitos, coisas assim. Somem-se a isso os tremendos quarenta dias que antecederam o enlace, com aquele desespero aflito tomando conta dos cavalheiros e das senhoras, com as mil consultas a alfaiates, chapeleiros, modistas etc., e a uma conclusão lógica se chegará: a de que nunca, em nenhum tempo, a elegância nacional viveu instantes tão absolutos.

“Trabalhei mais nestes últimos trinta dias do que em dez anos de minha vida”, teria confessado o sr. Henrique Liberal a um amigo. E não era outra coisa o que dizia sua fisionomia naquela noite em que o fui surpreender no Spadoni, ao lado dos noivos ilustres, nas vésperas do acontecimento. Eu havia perguntado ao garçom por que razão o conde estava ali com sua filha, seu futuro genro e mais alguns convivas almoçando num restaurante, quando poderia ter ficado no seu palacete, onde naturalmente os cardápios são melhores. O garçom me informou que “o palácio da avenida Paulista já estava todo arrumado e que, por causa disso, o pessoal de lá tinha que fazer as refeições nos restaurantes”. Disse-me mais: “Ontem eles comeram no Papote, hoje almoçaram e jantaram aqui. Tem que ser assim até o dia do casamento”. Outro detalhe era aquele braço esquerdo do sr. Liberal metido numa tipóia, como se o famoso decorador tivesse saído, mutilado mas vitorioso, de uma cruenta batalha. “Parece que ele caiu de uma escada, quando pregava umas cortinas”, foi o que me informaram numa redação. Quanto ao noivo, o antigo pracinha João Lage, era, ali no Spadoni, a segunda ou terceira vez que eu o via. A primeira fora naquela tremenda PorretaTerme¹,* no Norte italiano, no frígido janeiro.

Alguém me apresentara ao pracinha-milionário, e creio que conversamos quatro ou cinco minutos sobre coisas gerais: naturalmente sobre a neve, o Brasil e os alemães. Vi-o novamente, em Florença, no hotel dos nossos soldados. E o via novamente ali, no restaurante de luxo, o cabelo bem penteado, o olhar alto, o terno bem cortado e a gravata discreta. Lá no front, o pracinha Lage se dissolvia e se inutilizava entre os seus outros 20 mil companheiros de luta; mas nestes dias de agora, seu vulto comprido e moço jamais poderá ser confundido com o de qualquer outro rapaz brasileiro. Dissertei esta filosofia para o meu companheiro de mesa, que concordou com gravidade. -É isso mesmo. Nuvem pesada e negra, ameaçando um desastre total, foi aquela que caiu dez dias antes das festas, sobre o mundanismo paulista: em forma de boato terrorista, a nuvem informava que a srta. Filly Matarazzo havia sido mordida por um cachorrinho de raça, e suspeitava-se de que o cachorrinho estava doente. Diziase mais: que a noiva fora entregue aos cuidados de todo um corpo clínico, que lhe vinha ministrando injeções especiais e exigentes. Em suma: talvez o casamento tivesse que ser adiado. “O casamento seria adiado!” Como a mais potente das bombas atômicas, a notícia desesperada pôs-se a estremecer os alicerces da Nagasaki mundana de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os jornais telefonaram aflitos para os médicos conhecidos e alguns repórteres, mais ingênuos, tentaram chegar ao mundo proibido do palácio da avenida Paulista. Mas, de positivo, nada se soube.

A notícia transformou-se, dias depois, numa revelação mais alentadora: de fato, a noiva havia sido mordida, mas de qualquer maneira o casamento seria realizado. Depois, então, se cuidaria do resto. Eu estava no Jequiti uma noite, quando a nuvem negra e pesada se transformou num puro e leve floco de algodão, nuvem de anjo. Um cavalheiro entrou esbaforido na boate, sentou-se numa mesa do primeiro plano, segredou qualquer coisa para o cavalheiro vizinho. O cavalheiro vizinho passou a notícia para a senhora ao lado, a senhora para o outro cavalheiro, e assim por diante. Quatro ou seis minutos depois, a nuvenzinha branca, talvez cor-de-rosa, chegava até mim: -Não será adiado! A coisa me pegou de surpresa. Deixei de mastigar o amendoim, perguntei: -Adiado o quê? O pleito eleitoral? -Não. O casamento! Não será adiado! E lá se foi a nuvenzinha, de ouvido em ouvido, tangida pela brisa mais feliz e mais amiga. Passou a nuvem pesada, realizou-se o casamento, os noivos estão agora na mais confortável das luasde-mel, mas um enigma perdura: o mistério do cachorrinho doente. A noiva teria ou não sido mordida? O cachorro estava ou não doente? Ou, como me disse um amigo, o termo “mordido” se referia apenas a uma ação simbólica? Espesso mistério.

“A mais bela festa do Brasil”, propriamente dita, durou precisamente dois dias, três noites e três madrugadas. Começou precisamente no sábado, 8, às nove e meia da noite, quando foram realizadas as bodas civis, com apenas dez convidados, a gente mais eleita. Lá estava a família Martinez de Hoz, lá estava o barão de Saavedra, além de um redator especial de conhecida agência telegráfica estrangeira. Depois da cerimônia, foi o baile. À meia-noite, os noivos dançaram a primeira valsa. “O conde tinha um sorriso de pomba nos lábios”, informou um cronista.

O palácio resplandecia, mil luzes, mil reflexos, as fontes luminosas lá fora, o povaréu, anônimo e friorento, se acumulando paciente no sereno. Depois, as Sílfides. Gentis e airosas, as bailarinas do Municipal, sob o compasso de uma orquestra de cem músicos, amaciaram e encantaram os privilegiados corações presentes com a música chopiniana. Jacinto de Thormes, que sabe ser comedido, escreveu que nunca viu uma coisa tão impressionante. O próprio conde, que nunca ligou muito para a música, ficou embevecido no seu lugar, mergulhado noutro mundo. Seiscentos mil cruzeiros havia custado aquela formosura: 200 mil cruzeiros para a orquestra, trazida especialmente do Rio, e outros 400 mil para d. Maria Olenewa, as bailarinas e a apresentação do espetáculo. Nessa noite, antes de se retirarem, os convidados (oitocentos, precisamente) deixaram suas assinaturas no mais esplendoroso “livro de ponto” já conhecido: capa folheada a ouro e papel da qualidade mais difícil. Antes e depois das Silfides (a que o dr. Marques dos Reis não assistiu), foram as danças, que começaram às onze da noite e terminaram nas últimas horas da madrugada do dia 10. Houve um intervalo nos festejos, entre a primeira fase da dança e o começo do balé, para que o conde, irresistivelmente pródigo, distribuísse entre os convidados ricos cotillons. Peguei num deles: uma canetatinteiro de ouro com o nome do agraciado gravado -aquilo não devia ter custado menos de 4 mil cruzeiros. Oitocentos convidados, oitocentos cotillons. A nota mais colorida da noite do dia 10 foi, no entanto, a chuva pirotécnica que caiu sobre os jardins do palácio Matarazzo, precisamente quando o balé (antes somente representado para o sr. Getulio Vargas) ia na sua metade. “O conde gastou, só em fogos de artifício, trezentos mil cruzeiros”, é o que me revela figura insuspeita e bem informada.

O casamento religioso foi na segunda-feira (o domingo constituiu uma meia trégua, com uma pequena recepção e outro baile à noite), e de uma certa maneira seu brilhantismo, com a igreja toda ornamentada, deixou na sombra os festejos com que os paulistas, naqueles dias, costumam agraciar o imaculado Coração de Maria. D. Aloísio Masela foi levado do Rio para a igreja Nossa Senhora do Carmo, na capital paulista, onde já se encontravam três bispos. Quando, depois de tudo acabado, os noivos seguiram, na terça-feira, para a sua lua-de-mel, e o dr. Pranchini Neto, exausto, recolheu-se à sua residência (ele foi o mestre-de-cerimônias de todo o esplendor, para o que, dizem, recebeu 300 mil cruzeiros), o conde havia despendido pouco mais de 6 milhões de cruzeiros. Não falando, é lógico, nas dádivas especiais que ofertou à sua filha e ao seu genro.

Somente um colar de pedras, tremeluzindo no colo de d. Pilly, custou 3,5 milhões de cruzeiros. Duas orquestras num total de perto de 150 músicos; caças raras mandadas vir de matas do Paraná; cozinheiros caríssimos (inclusive o mestre-cuca do Automóvel Club); fogos de artifício especiais; o penteador Gervais, que andou distribuindo suas mãos mágicas pelas enternecedoras cabecinhas paulistas (o penteado que ele construiu para a noiva custou 2300 cruzeiros); litros de champanha, uísque, mil bebidas outras; cem tiras da Ordem Social e smokings alugados para os mesmos; mobilização da Polícia do Trânsito; quatrocentos apartamentos alugados nos mais importantes hotéis da capital; 200 mil cruzeiros de vestidos; todo o melhor conjunto coreográfico do país para uma exibição de pouco menos de duas horas; o dr. Pranchini, com suas maneiras; perto de 500 mil cruzeiros em decorações realizadas pelo gênio inventivo, agora um tanto gasto e repetido, do sr. Liberal; 80 milhões de cruzeiros de dote; 200 mil cruzeiros por um souvenir oferecido à noiva pelos diretores do grupo Matarazzo; um núncio e três bispos; coral com a melhor música sacra de Palestrina -tanta coisa mais, meu Deus, que teria acontecido com o conde Francisco Matarazzo Júnior? Que teria acontecido? Antes tão pacato, metido lá com os seus negócios, de casa para suas fábricas, das fábricas para o maciço arranha-céu vizinho ao viaduto do Chá e, de repente, por artes diabólicas, o demônio da ostentação toma conta do seu espírito e o obriga àquele espalhafato todo. “Não sei não, meu senhor, mas acho que o conde Chiquinho está gastando dinheiro demais”, foi o que me disse, na redação do Diário de S. Paulo, d. alivia Figueira Ramos, mãe de uma outra noiva, imensamente mais modesta.

Ela fora ali, atraída pela publicidade que o jornal vinha dando ao imponente casório, e nos aparecia armada de uma lógica ingênua e simples. Disse: -Leio todos os dias notícias do casamento da filha do conde e pensei que os senhores podiam publicar uma notinha qualquer sobre o noivado de minha filha.

Ela se casa sábado. Como d. Olivia chegara num momento bastante oportuno, teve mais do que “uma notinha’; teve toda uma reportagem. Em companhia de Maurício Loureiro Gama, estive na humilde casa da Vila Romana, onde se realizou o matrimônio da moça Nadir Figueira Ramos, operária de uma das fábricas Matarazzo, com o rapaz José Todeschi, torneiro-mecânico. Quando voltaram da igreja, na cidade, ela de azul, ele de marrom, encontraram o seu pequeno lar enfeitado com algumas flores de papel crepom e outras naturais; duas cortinas brancas na janela, pão doce, goiabada, refresco de laranja, quatro ou cinco garrafas de cerveja e algum guaraná. as móveis eram rústicos, e ainda não estão pagos. E depois do casamento, no dia seguinte, Nadir voltou para sua fábrica e José para sua oficina. Lua-de-mel, sim, mas depois das poderosas chaminés da Matarazw gritarem o fim do segundo expediente do dia.

“Moço, será que só a filha do Matarazzo tem o direito de ver ,o seu casamento noticiado pelos jornais? Gente pobre também não casa?”, perguntou d. Olívia ao repórter. E lá fomos nós para o casamento de sua filha. Era, afinal, uma compensação, um tanto melancólica, para quem não pôde romper a terrível e impraticável parede que separa o mundo dourado do palácio da avenida Paulista e o mundo prosaico da rua, o nosso mundo. E de tais compensações vivem os repórteres otimistas.

1 PorretaTerrne era um quartel-general avançado na Itália, do qual o Exército brasileiro partiu para a conquista de Monte Castelo, em 22 de fevereiro de 1945. (N. E.)

FONTE: https://www.conversaafiada.com.br/brasil/a-globo-e-o-golpe-se-unem-na-1002a-noite