Estratégia de Obama contra o Estado Islâmico não convence nos EUA.

Estratégia de Obama contra o Estado Islâmico não convence nos EUA.
setembro 14 10:26 2014 Imprimir este Artigo

Jim Lobe – IPS

Arquivo

A estratégia do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para “degradar, e em última instância destruir” o extremista Estado Islâmico (EI) foi recebida com ceticismo generalizado de parlamentares e especialistas em Oriente Médio do país.

Apesar de ser esperado que o Congresso aceitasse, ainda que não autorizasse formalmente, o plano que Obama esboçou em um discurso televisionado na noite de quarta-feira, 10, parlamentares do oficialista Partido Democrata e do oposicionista Partido Republicano não pouparam suas objeções.

“O presidente apresentou um plano convincente a favor da ação, mas ainda restam muitas perguntas relacionadas à maneira como pretende agir”, opinou o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner.

Em seu discurso, Obama adotou um tom decidido e confiante que lhe rendeu elogios, inclusive de republicanos como Boehner. Mas não é nenhum segredo que o presidente, que anseia que a saída de Washington das guerras do Oriente Médio seja um legado de sua administração, resistiu de maneira constante à pressão para que os Estados Unidos aumentassem sua presença militar na região.

Obama anunciou que reforçará o apoio dos Estados Unidos ao exército iraquiano e aos combatentes curdos, os peshmergas, com mais treinamento, inteligência e equipamentos, e com o envio de 475 militares norte-americanos, que se somaram aos mais de mil que estão no território desde que o EI, antes conhecido como ISIS, avançou por grande parte do norte e do centro do Iraque em junho.

Ao mesmo tempo, prometeu que a ação “não implicará que tropas de combate norte-americanas lutem em solo estrangeiro”.

Os Estados Unidos realizarão ataques aéreos contra alvos do EI “onde existirem”, não apenas no Iraque, mas também na Síria, acrescentou Obama.

Ele indicou que Washington está reunindo uma “ampla coalizão de parceiros”, que inclui a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), os Estados do Golfo governados por sunistas, a Jordânia e o Líbano.

Estes governos prometeram apoio à campanha contra o EI e ao novo governo do premiê iraquiano, Haider al Abadi, durante uma reunião com o secretário de Estado John Kerry na cidade saudita de Yeda.

Obama também pediu ao Congresso que rapidamente aprovasse uma solicitação pendente de 500 milhões de dólares para treinar e equipar a insurgência síria que luta contra o governo de Bashar al Assad e o EI.

A Arábia Saudita, que apoia diversas facções insurgentes em sua luta contra o presidente sírio, aceitou abrigar campos de treinamento para estes rebeldes “moderados”, segundo funcionários de Washington.

Esta “estratégia antiterrorista sólida e abrangente”, que Obama comparou com as operações de Washington no Iêmen e na Somália, “erradicará um câncer como” é o EI, disse Obama.

Apesar de o plano do presidente ter obtido a cautelosa aprovação da maioria dos parlamentares, muitos defendem que ele gerou tantas dúvidas quanto resposta, entre elas, se Obama tem autorização legal para ordenar ataques contra o EI, especialmente na Síria, sem a expressa autorização do Congresso.

Ao mesmo tempo, os defensores da intervenção militar se perguntam se a estratégia, sobretudo a promessa de Obama de não enviar forças de combate, será suficiente para alcançar seus objetivos.

“A ‘estratégia’ de Obama não tem nenhuma possibilidade de êxito”, escreveram Frederick e Kimberly Kagan, respectivamente do neoconservador American Enterprise Institute (AEI) e do Instituto para o Estudo da Guerra, no site da revista Weekly Standard.

Os dois acadêmicos, que ajudaram a planejar a operação do governo de George W. Bush (2001-2009) para frear o conflito entre sunitas e xiitas no Iraque em 2007, argumentam que uma estratégia antiterrorista não funcionaria contra uma insurgência consolidada, como é o EI.

“É tremendamente difícil desenvolver uma estratégia sólida quando se começa por um diagnóstico errôneo do problema”, escreveram. Frederick Kagan argumenta que, apenas no Iraque, é necessária a presença de 10 mil a 15 mil soldados norte-americanos.

Mas outros discordam. “Mais tropas norte-americanas no terreno significam precisamente o que o líder do EI, Abu Bakr ‘Al Baghdadi’ quer”, afirmou ao IPS o coronel aposentado Lawrence Wilkerson, chefe do Estado maior durante a gestão do ex-secretário de Estado Colin Powell (2001-2005). “Um ambiente cheio de brancos é o que eles querem, e no seu território”, acrescentou.

“Se os iraquianos e outros não estão dispostos a derrotar as forças do EI, então a potência aérea dos Estados Unidos e aliados, algum conselho sobre operações terrestres e a assistência da inteligência precisam conseguir fazê-lo”, argumentou.

O EI “não mede três metros de altura, nem um metro sequer, apesar de o bombardeio midiático dizer o contrário”, assegurou Wilkerson.

Vencer o EI no Iraque dependerá em grande medida se Abadi vai cumprir sua promessa e compartilhar o poder com os árabes sunitas para integrá-los plenamente a uma nova estrutura de segurança, segundo especialistas na região.

“Cem anos de guerra… demonstraram que a potência aérea pode ter êxito somente se a força terrestre estiver pronta para aproveitar os ataques aéreos e tomar e ocupar fisicamente o território”, destacou Wayne White, ex-funcionário de inteligência do Departamento de Estado e atual integrante do Instituto do Oriente Médio.

“O presidente não ignora esta máxima, daí seu papel na destruição do detestável ex-premiê Nouri al Maliki e a necessidade de um novo governo em Bagdá que seja inclusivo de forma crível e que possa reavivar o exército iraquiano”, escreveu por e-mail.

A pergunta do milhão é se o governo aparentemente medíocre de Abadi pode afastar o suficiente tribos árabes e quadros sunitas do movimento Despertar do apoio ativo e passivo que o EI oferece”, acrescentou White.

“Somente um força árabe sunita de magnitude e de dentro poderia conseguir um avanço considerável, junto dos ataques aéreos, para descolar o EI de seus baluartes chave”, disse.

Ainda que a estratégia no Iraque prospere, atacar o EI na Síria será muito mais difícil porque as faccções rebeldes que os países ocidentais apoiam são “muito mais fracas do que as de dois anos atrás”, segundo o ex-diretor da CIA Michael Morrell.

Sua opinião é compartilhada pela maioria dos especialistas na região, alguns dos quais, como o ex-embaixador no Iraque, Ryan Crocker, defendem que é preciso cooperar com Assad como o mal menor, algo que Washington parece rejeitar.

O discurso de Obama “deixa importantes perguntas sem resposta sobre a Síria”, disse Paul Pillar, analista veterano da CIA.

“Se vai expulsar o EI, quem preencherá este vazio? Se for o regime de Assad, como isso vai encaixar com a contínua oposição dos Estados Unidos a esse regime? Se for alguém mais, como isso vai encaixar com a persistente falta de unidade, força e credibilidade da chamada oposição moderada?”, concluiu.

Tradução: Daniella Cambaúva

FONTES:
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Estrategia-de-Obama-contra-o-Estado-Islamico-nao-convence-nos-EUA/6/31802

Créditos da foto: Arquivo

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