História que não saberemos contar aos nossos netos, por J. Carlos de Assis.

História que não saberemos contar aos nossos netos, por J. Carlos de Assis.
novembro 13 10:07 2017 Imprimir este Artigo

José Carlos de Assis – seg, 13/11/2017 – 09:45

História que não saberemos contar aos nossos netos

por J. Carlos de Assis

Um dia tentaremos contar a nossos filhos e netos a inacreditável história de um grande país que, como a Somália, tornou-se presa de piratas e bandidos. Será uma fábula envergonhada, pois nossos filhos e netos perguntarão espantados: “E vocês não fizeram nada?” O problema, nos desculparemos, é que ficamos esperando um pelos outros, tomando como verdade as fantásticas declarações da presidente do Supremo Tribunal Federal segundo as quais “as instituições brasileiras estão funcionando muito bem”.​

Acabo de ver pela televisão o presidente da República recebendo a visita de um conhecido bandido que lhe serviu como doleiro durante décadas. Depois, em solenidade com grande gala, vi o presidente conferir a um ministro acusado de formação de quadrilha, Moreira Franco, a gerência de um fundo publicitário de 1,8 bilhão de reais. Em seguida, a televisão registra grande movimentação na Câmara para impedir a continuidade dos inquéritos contra o presidente e seu séquito, inclusive junto ao Supremo Tribunal Federal.

Loucos. Acham que podem enganar todos por todo o tempo? Estão empoleirados nos seus mandatos e acreditam que o povo não tem memória, que o dinheiro das emendas que estão recebendo agora do Governo lhes garantirão a reeleição no próximo ano? O espetáculo repugnante na Câmara incluiu manobras para desidratar o projeto de abuso de autoridade com o objetivo óbvio de comprar a simpatia de juízes, promotores e policiais que abusam do seu poder em detrimento de legítimos direitos dos cidadãos. A moeda de troca da Lava Jato é ignorar os bandidos do Parlamento e concentrar  fogo em empresas que geram empregos e multas.

Por tudo que conheço de Ciência Política me tranqüilizo diante do jogo abjeto comandado pelo Palácio do Planalto para esconder os crimes de seu principal ocupante e de seus comparsas. É que isso não pode, não vai continuar para sempre. Quanto mais  artifícios os criminosos criam para disfarçar o assalto aos cofres públicos e a venda de favores a apaniguados privados, pior para eles: mais se acumula o ódio, o desprezo e o desejo de vingança. Chegará o momento em que teremos piedade deles, e agradeceremos a Deus por não ter pena de morte no Brasil. Quem viver verá! E os que não viverem, terão seus filhos e netos por testemunhas do cortejo infame no trajeto entre o Planalto e a Papuda.

A que se deve essa ignomínia? Tudo começa no impeachment, onde opositores sinceros de Dilma se juntaram a oportunistas e ladrões formando os dois terços do Parlamento indispensáveis para o afastamento da Presidenta. Isso possibilitaria uma base parlamentar para a aprovação a toque de caixa de múltiplas iniciativas legislativas, agora consolidada por bom dinheiro sonante. No momento atual, ligeiramente desgastada, essa base ainda é mantida pela venda ou pela expectativa de vender o mandato. Entretanto, tendo em vista  eleições no próximo ano, joga-se tudo na ilusão da melhora da economia e do emprego, em confronto com a revolta que traria, por exemplo, a reforma da Previdência. É nesse ponto que se pode rememorar Lenin: a verdade é revolucionária.  Por isso, não precisamos gastar muita retórica para que o próprio sistema corrupto acabe mandando os vendilhões do templo para a Papuda.

FONTE: https://jornalggn.com.br/noticia/historia-que-nao-saberemos-contar-aos-nossos-netos-por-j-carlos-de-assis

J. CARLOS DE ASSIS
J. CARLOS DE ASSIS

J. Carlos de Assis é economista, professor de economia internacional da UEPB e autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus” (ed. Civilização Brasileira).

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