“Melhor que tivessem ficado caladas”, diz Kennedy Alencar a associações que negam suicídio de reitor.

“Melhor que tivessem ficado caladas”, diz Kennedy Alencar a associações que negam suicídio de reitor.
outubro 10 10:58 2017 Imprimir este Artigo

O Jornal de todos Brasister, 10/10/2017 – 10:47 – Atualizado em 10/10/2017 – 10:49

Foto: Agência Brasil
Jornal GGN – O jornalista Kennedy Alencar publicou artigo nesta terça (10) criticando a postura de seis entidades de classe que representam setores que atuam na operação Ouvidos Moucos. Em nota, essas instituições disseram que a morte do reitor da UFSC, Luiz Carlos Concellier, foi uma “tragédia pessoal” que não deveria ser explorada por grupos que consideram o suicídio decorrência do abuso de autoridade.
“A reação de Cancellier foi a de alguém que se sentiu injustamente acusado e envergonhado pelo episódio ao qual foi submetido”, disse Kennedy. “Melhor que as seis entidades tivessem ficado caladas. Elas deveriam usar esse caso para fazer uma autocrítica a respeito de eventuais abusos e linchamentos públicos. Realizam operações e dão entrevistas no dia seguinte fazendo um julgamento sumário dos acusados. Será que não valeria uma reflexão para saber se algum erro foi cometido?”, disparou.
Por Kennedy Alencar
Seis entidades que representam servidores públicos que atuam na Operação Ouvidos Moucos divulgaram nota ontem a respeito do suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Essas entidades criticaram o que seria o uso de uma “tragédia pessoal” para “manipular a opinião pública”. A Operação Ouvidos Moucos investiga suposta irregularidades na concessão de bolsas de ensino à distância. A nota é uma reação às críticas de políticos, jornalistas, acadêmicos e amigos de Cancellier.
Cancellier foi obviamente vítima de um abuso de investigação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. Foi preso num dia e solto no seguinte. Negou as acusações. Mas foi afastado da universidade. Matou-se na segunda-feira da semana passada, deixando um bilhete no qual disse que a sua morte foi decretada pelo banimento da universidade.
A reação de Cancellier foi a de alguém que se sentiu injustamente acusado e envergonhado pelo episódio ao qual foi submetido. A nota das entidades afirma: “Uma tragédia pessoal não deveria ser utilizada para manipular a opinião pública, razão pela qual as autoridades públicas em questão, em respeito ao investigado e à sua família, recusam-se a participar de um debate nessas condições”. Ora, a nota participa do debate dando lição de moral e ética.
Melhor que as seis entidades tivessem ficado caladas. Elas deveriam usar esse caso para fazer uma autocrítica a respeito de eventuais abusos e linchamentos públicos. Realizam operações e dão entrevistas no dia seguinte fazendo um julgamento sumário dos acusados. Será que não valeria uma reflexão para saber se algum erro foi cometido?
Mas as entidades acusam quem está criticando a forma como a Operação Ouvidos Moucos foi feita de tirar proveito “de uma tragédia para fins políticos”. O reitor saltou do quinto andar no vão de um shopping em Florianópolis. Políticos, acadêmicos e jornalistas e amigos de Cancellier têm todo o direito de questionar publicamente os métodos e as decisões da Operação Ouvidos Moucos.
As entidades que assinam a nota formam a nata da alta burocracia do país e de Santa Catarina. São elas: a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil), a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), a ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal), a Ajufesc (Associação dos Juízes Federais de Santa Catarina), a Unacon (Sindicato Nacional dos Auditores e Técnicos Federais de Finanças e Controle) e o Fonacate (Fórum Nacional das Carreiras Típicas de Estado).
Se essas entidades realmente lamentam a morte do reitor, como escreveram, deveriam buscar descobrir quais foram os seus erros e não agir de forma arrogante, dizendo que há tentativa de manipulação da opinião pública.
Quando cometem abusos, dizem que os críticos defendem a corrupção. Quando defendem privilégios, como salários acima do teto constitucional, fazem campanha na TV dizendo-se perseguidas injustamente.
Esses funcionários públicos têm poder demais para usá-lo sem questionamentos da sociedade. Não gostam de controle externo, algo necessário numa democracia. A imprensa, que tem o dever de ser crítica do poder, de fiscalizar os políticos, deve ter a mesma atitude em relação a policiais, promotores e juízes. O jornalismo não pode ser correia de transmissão da polícia nem do Ministério Público e tampouco do Judiciário.
A morte de Cancellier é um símbolo do abuso e da arrogância desses supostos cavaleiros do combate à corrupção. Diante da morte de uma pessoa, recorrem ao velho truque de que críticas são tentativa de manipular a opinião. Ora, a nota dessas entidades é uma vergonhosa tentativa de manipular a opinião pública.
Afinal, houve o suicídio de um acusado. Deveria ser um fato suficiente para que investigadores e julgadores reavaliassem a correção das suas condutas. Um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém, inclusive a nós, jornalistas. A morte de Cancellier simboliza a reação de um injustiçado. É isso o que mais importa nesse triste episódio.
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FONTE: https://jornalggn.com.br/noticia/melhor-que-tivessem-ficado-caladas-diz-kennedy-alencar-a-associacoes-que-negam-suicidio-de-reitor