QUE DIA É ESTE?

QUE DIA É ESTE?
maio 13 13:12 2017 Imprimir este Artigo

Publicado originalmente em 12/05/2013.

Para além dos clichês, em algum momento de nossas vidas necessitamos refletir sobre alguns símbolos e mitos que nos acompanham por toda vida. Idolatrarmos coisas e/ou pessoas que jamais compartilharemos a presença se tornou lugar comum, pois somos formados em uma sociedade que nos provoca a sensação de que só seremos felizes se tivermos algum objeto de desejo, ou ainda, se os que idolatramos forem representações de sucesso e riqueza. O time de futebol, o ídolo da música, do cinema, da novela, da TV, o “maior jogador de todos os tempos”, o político, o melhor poeta etc, etc, etc. Adquirimos uma necessidade vital de nos vermos representados; se não conseguimos “dar certo”, pelo menos podemos projetar nestas miragens representativas de sucesso na vida nossas frustrações.

Digo isso porque é comum assistirmos aos mais variados desentendimentos – nas mais inimagináveis situações – que podem inclusive chegar às “vias de fato”, em que o ponto de discórdia é algo que não nos diz respeito ou ainda, alguma coisa que, absolutamente,  não compromete nossas vidas. Chegamos ao ponto de dedicarmos todos nossos sentimentos (bons ou ruins) na tentativa de comprovarmos que nossa felicidade será uma consequência destas situações. Trata-se daquilo que se costuma chamar de fetichização, ou seja, passamos a inverter necessidades desconhecendo nossas reais condições e, portanto, valorizando, via de regra, algo que nos deveria parecer irrelevante. É lógico que esta percepção se torna cada vez mais difícil quando vivemos, como nunca visto, um processo em que o “ter” se tornou mais importante que o “ser”; que as emoções não se apresentam mais através de um gesto simples e natural, mas via de regra, através de uma mercadoria qualquer.

Hoje, em especial, podemos refletir com mais clareza sobre tudo isso. Consagrou-se, de forma muito conveniente, que deveríamos definir um dia do ano para homenagearmos nossas mães. Somos empurrados, e por que não dizer obrigados, a comprar um presente que será, segundo toda esta lógica, a representação de nosso amor e gratidão. O que acontece é que na maioria das vezes a escolha de uma “marca de sucesso” passa a ser a decisão mais importante, o que equivale dizer que dependendo de sua condição econômica você colocará a sua mãe em um processo classificatório; explico melhor: as mães passariam a ser ranqueadas de acordo com o presente que ganharam. Se ganhou um tênis Nike ou uma jóia, é “classe A”; se ganhou uma bolsa do camelô, é “classe C ou D”, se não ganhou nada, os filhos a desprezam… Posso estar exagerando, mas quando nos damos conta destas inversões da realidade já muito tarde.

Quero então propor uma outra possibilidade. Que tal aproveitarmos as contingências de um – único – “dia das mães” e inventarmos novas formas de demonstrar nosso agradecimento? Por que não começarmos a perguntar às nossas mães quais as lembranças que elas possuem? Quais os medos que sentiram e sentem ainda hoje? Como elas lidam com as frustrações? O que elas esperam dos filhos? Quais as dificuldades e alegrias que tiveram ao nos verem crescer? E por aí vai…  Após escutarmos suas respostas podemos oferecer nossas percepções de como elas foram importantes (ou nem tanto segundo nossa perspectiva). Podemos relembrar os momentos de nossas vidas (por mais insignificantes que possam parecer) em que elas se fizeram presentes e que não saem de nossa memória: o direito de poder lamber a colher que acabou de ser retirada da massa do bolo que será assado, a pergunta sobre o que gostaria de comer, o abraço e o aconchego em um dia de muita tristeza e perdas, a forma como acolheu nossa escolhida companheira ou como nos amparou nas desilusões amorosas. Podemos, ainda, fazer uma declaração dos ensinamentos que reconhecemos como os mais importantes em nossa formação como pessoas: o dia em que ela nos ensinou como arrumar o quarto ou lavar o banheiro, os conselhos para que tomássemos cuidado com nossas amizades, o dia em que nos ensinou a ver as horas, quando nos obrigou a devolver um brinquedinho ao amigo da escola, quando nos “puxou a orelha” quando desdenhamos da miséria alheia, e até mesmo, quando nos ensinou a trocar as fraldas de seus netos.

Pode parecer meio romântico e fora de propósito, mas acho que seria muito diferente do que temos feito até hoje. Melhor ainda, acho que seria uma forma de aprender e ensinar que as coisas mais importantes devem ser buscadas nos gestos mais simples. Digo tudo isso porque tive uma mãe que, ao seu jeito, foi fundamental para que me tornasse o que sou hoje. Aprendi desde criança que o valor de uma mãe está na forma como ela prepara e provoca seus filhos para o futuro. Pude ser seu filho e ajudante, companheiro e conselheiro, pedreiro e motorista, aprendiz e feiticeiro. Pude, acima de tudo, compreender o significado da palavra amor. Hoje ela descansa! Também pude perceber que outras mães rodearam toda minha caminhada, pois todas sempre tiveram as mesmas qualidades e honestidade de sentimentos.

Por tudo isso, espero que possam ter um dia das mães muito feliz com aquelas que representam esta real condição em suas vidas: suas bisavós, avós, mães, companheiras, sogras, tias, irmãs, enfim, junto à esta figura que não é um mito, mas é real e de carne e osso sendo símbolo do mais importante sentimento humano.

Em tempo: Esta é uma simples, mas sincera homenagem a todas as mães, em especial à Maria Rita, Dona Cely, à “Lourdes”, tias Lourdes e Cecília, Vó Terezinha, Ana Gabriela, Carolina, Sabrina, Vê, Luziara e Michele.

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Paulo de Tarso S. Santos
Paulo de Tarso S. Santos

Paulo de Tarso S. Santos, 55: Prof. Universitário, Mestre em Economia Política, Doutor em Ciência Política pela UNICAMP.

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