sexta, 16 de maio de 2014
O Palheiro

TAXA DE JURO E TAXA DE CÂMBIO

Paulo de Tarso S. Santos janeiro 26, 2011 Economia e Política, Nacional, Paulo de Tarso Nenhum Comentário
ECONOMIA

Para que possamos começar a entender a relação entre juro e câmbio é necessário entender um elemento comum: o dinheiro.

Dentro de uma dinâmica de consumo como a que vivemos é comum a perda da real noção e o verdadeiro papel do dinheiro. Vai uma dica: toda vez que quiser entender a real função do dinheiro consulte uma criança que ainda não esteja alfabetizada; perceberá que ela sabe que a “notinha verde” (moeda de R$ 1,00) equivale a um pirulito e/ou a seis balas. Como, na maioria das vezes, esquecemos que o dinheiro “é uma mercadoria”, ou seja, uma “terceira mercadoria específica para viabilizar as trocas”, nunca nos lembramos que toda mercadoria possui um “preço”; seja para compra e venda, seja para ser emprestada.

A base, portanto, é esta. O dinheiro além de representar poder de compra (quantidade de moedas equivalem ao preço de determinadas mercadorias) também se transformou em uma mercadoria que pode ser emprestada; quem toma o empréstimo deve pagar pelo uso (pagamento de juro) e quem abre mão de usá-la recebe por emprestar ao outro (recebimento de juro). Neste sentido o dinheiro passa a se submeter à lógica da oferta e da procura (se tem muita mercadoria disponível o preço cai, se ao contrário houver pouca mercadoria ofertada, o preço sobe). Por isso que existe uma forma de avaliar estas alterações do preço da moeda; é a chamada taxa de juros – mais dinheiro disponível para empréstimos, menor a taxa de juro, menos dinheiro disponível, maior a taxa de juros. Acontece que a taxa de juros influencia diretamente os custos de produção de qualquer economia. Taxa de juro alta significa que as empresas (e os cidadãos) pagarão muito mais para “usar” dinheiro e, portanto, comprometerão suas rendas ainda mais. Ou seja, passa-se a não assumir mais riscos e, no caso das empresas, não tomar dinheiro emprestado para ampliar e/ou melhorar sua atividade (o investimento cai). Com isso diminui (ou se mantém inalterada) a taxa de emprego o que leva à diminuição da renda e da atividade econômica (compra, venda, serviços etc.). Percebam então, que a taxa de juros além de ser um instrumento técnico para controlar a inflação (por exemplo) também é um “preço político”, pois, além de intimidar o crescimento também define o aumento de ganho por parte daqueles que, ao invés de investirem em produção, vivem do estímulo à especulação financeira (ganhar dinheiro sem gerar empregos e sem compromissos sociais). Vamos nos lembrar que um dos maiores “problemas” da Economia é conseguir definir um processo de distribuição que combata esta lógica de injustiça distributiva.

Isso nos remete a uma questão complexa: quem define a taxa de juros? No caso brasileiro sabemos que o Banco Central é o responsável por acompanhar e fiscalizar todo o sistema financeiro nacional e, portanto, é ele quem deve definir qual a taxa de juros ideal para o bom funcionamento da economia sem que ocorram distorções que possam levar ao aprofundamento de problemas como a “concentração de rendas” (famílias de baixa renda não possuem dinheiro sobrando para aplicar em “fundos de investimentos” bancários). Para tentar diminuir a possibilidade de erros na definição das taxas existe um Comitê de Política Monetária (COPOM), cuja função é, entre outras, avaliar qual a “taxa de juro ideal” para o bom funcionamento do sistema como um todo. Desta forma o COPOM se reúne regularmente para avaliar e decidir se mantém ou altera (para mais ou para menos) a taxa de juro oficial da economia. Por isso se faz necessário um amplo debate sobre quem são – e quem deve ser – os representantes da sociedade que participam das decisões sobre a taxa de juros (com certeza os trabalhadores lá não estão representados).

O problema de tudo isso é que um governo é sempre a expressão de grupos sociais que convivem na sociedade, mas este governo possui, inevitavelmente, uma base de sustentação, ou seja, todo governo tem origem em algum grupo da sociedade, e, portanto, quando os representantes de determinado grupo assume o governo (por mais que se declarem governantes de todos), é óbvio que deverão cumprir com os compromissos assumidos durante a campanha, principalmente com aquele grupo que os financiou – por isso uma reforma Política é mais importante do que qualquer outra.

Neste sentido a taxa de juros acaba por representar também, qual o grupo será privilegiado em determinados governos. O caso brasileiro é um tanto complexo, pois é possível assistirmos televisão e vermos reclamações contra as “Leis trabalhistas”, mas não se vê nenhum “empresário” (este termo no Brasil ainda é muito relativo) reclamando das altas taxas de juros que impedem o investimento e a ampliação da produção e do emprego. A ausência de reclamações só pode ser entendida quando se percebe que o próprio sistema financeiro nacional abriu “brechas” para que os empresários (e as famílias de alta renda) compensem o que deixam de ganhar não investindo, também participando do processo especulativo – este é outro tema a ser abordado.

Semana que vem retomaremos com a questão do câmbio

Gostou? Compartilhe!

Sobre o autor

Paulo de Tarso S. Santos, 55: Prof. Universitário, Mestre em Economia Política, Doutorando em Ciência Política pela UNICAMP.